Exposição Almas Intemporais
O meu projeto pessoal consistiu numa exposição de fotos macro de olhos de crianças do “O Mundo Somos Nós” e de idosos da Casa do Povo de Ribeira de Neiva.
O objetivo era salientar que, ao olharmos apenas para os olhos, conseguimos realmente ver a alma das pessoas. Não a idade, não o corpo físico, mas a verdadeira essência humana. Quando observamos com atenção, torna-se difícil distinguir olhos ou identificar a quem pertence cada olho.

“Almas Intemporais” é um projeto que visa captar essas almas nos extremos do espectro humano: crianças pequenas e idosos, para demonstrar que, ao olharmos apenas para os olhos, não conseguimos distinguir as idades. Estamos a contemplar almas que transcendem o tempo como o conhecemos.
Como tudo começou?
É uma história um pouco longa, mas acho que isso a torna ainda mais bonita.
Há quase 10 anos comecei este pequeno projeto com a ideia de capturar os olhos das pessoas, dando-lhes a oportunidade de ver os seus olhos como se fosse a primeira vez que os estavam a observar. Porquê?
Bem, um dia, depois da escola, quando estava sozinha em casa e incrivelmente aborrecida, lembrei-me de uma aula de biologia sobre o reflexo ocular, de como a pupila dilata e contrai em diferentes condições de luz. Algo simples, mas decidi testar por mim mesma. Peguei numa lanterna e fui diretamente para o espelho da casa de banho. Basicamente, encadeei-me com a luz para ver como a minha pupila reagia.
Agora vem a parte interessante: como estava apenas a poucos centímetros do espelho, tive a oportunidade de ver os meus olhos. Realmente ver os meus olhos pela primeira vez.
Antes daquele pequeno momento, quando pensava nos meus olhos, tudo o que via era “castanho e aborrecido”.
Nada de especial. Essa ideia foi completamente dissolvida, dando lugar a algo novo.
Texturas. Padrões. Linhas. Pontos. Crateras.
O que vi no espelho fascinou-me tanto que decidi começar a tirar fotografias dos olhos para que as outras pessoas pudessem também ver os mistérios e mundos escondidos que os seus olhos encerram.

A partir daí, comecei a tirar fotos dos olhos dos meus amigos, colegas e até de desconhecidos que encontrava na rua.
Um novo mundo abriu-se, e testemunhar as reações das pessoas ao verem os seus olhos desta forma pela primeira vez era algo que realmente enchia a minha alma de luz e felicidade. Era como se estivesse a dar-lhes uma nova razão para se amarem ainda mais.
Então, quando descobri que tinha de fazer um projeto para o final do meu voluntariado, tudo ganhou sentido.
A exposição aconteceu na aldeia do Gontinho, durante um evento natalício: “Natal na Montanha” organizado pela Casa do Povo da Ribeira do Neiva, em Dezembro de 2024.

Apesar de eu já ter realizado várias exposições antes, esta foi uma experiência nova, pois foi a minha primeira exposição a solo e também a minha primeira exposição fotográfica.
Sendo a minha formação em arte e tecnologias (novas artes mediáticas), adotar uma abordagem mais tradicional saiu definitivamente da minha zona de conforto.
No entanto, gostei do processo lento e do trabalho manual. Fazer uma pausa da tecnologia fez-me bem. Isso não significa que não houve dificuldades a superar.
Por exemplo, estou habituada a ter as minhas próprias ferramentas e, quando planeio uma instalação artística, sei exatamente do que preciso para concretizá-la. Estando aqui, longe de casa, tive de usar as ferramentas que estavam disponíveis, o que significou ajustar as minhas ideias e expectativas iniciais sobre a forma final da exposição.
Uma coisa que me impressionou foi o sentido de comunidade e como todos (professores e pais) se uniram para me emprestar as ferramentas necessárias.
Criar arte é um processo e um caminho, e todas as coisas maravilhosas acontecem no “intervalo” entre o ponto de partida e o ponto final.
É aí que a arte ganha forma.
Acho que, como artista, a lição mais importante que se pode aprender é aceitar que temos de nos desprender das expectativas e abraçar o processo.

Permitir-nos ser surpreendidos.
Permitir-nos observar onde a jornada nos leva.
Por vezes, pode ir numa direção totalmente inesperada e diferente do que imaginámos no início.
Outras vezes, pode chegar muito perto daquilo que tínhamos em mente.
Mas, no final, acho que toma a forma que deveria ter.
Diana Chiru, Dezembro 2024
Site pessoal: https://chirud.art

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