O Despertar da Criatividade: Uma Viagem Artística através de Fernando Pessoa.

O Despertar da Criatividade: Uma Viagem Artística através de Fernando Pessoa

Nos últimos dias do meu voluntariado, tive a oportunidade de realizar um projeto pessoal que intitulei “O Despertar da Criatividade”. Inspirada pela riqueza poética de Fernando Pessoa, desenhei uma série de atividades criativas para um grupo de sete crianças, com idades compreendidas entre os 9 e 12 anos. O objetivo principal era despertar a sua imaginação e permitir-lhes explorar novas formas de expressão artística a partir de um poema do célebre poeta português. Fernando Pessoa

Durante os nove meses do meu voluntariado, aprendi muito com as crianças: a sua criatividade, espontaneidade e capacidade de imaginar sem limites inspiraram-me profundamente.

Por isso, decidi que queria retribuir-lhes de uma forma mais próxima.

Assim nasceu “O Despertar da Criatividade”.


Este novo projeto não só me permitiu trabalhar diretamente com um grupo de crianças mais velho, como também criar um espaço onde a sua imaginação pudesse florescer. Foi uma forma de me reconectar com a minha própria infância e oferecer-lhes algo que, em criança, eu teria valorizado imensamente.


No início, a minha ideia não era basear o workshop num poema. No entanto, após uma conversa com um dos professores das crianças, surgiu a possibilidade de incorporar um elemento literário que ligasse o emocional ao artístico. Assim, escolhemos um poema de Fernando Pessoa como o eixo central da atividade.
Embora a complexidade do poema pudesse ser desafiante até para adultos, descobri que as crianças conseguiam oferecer uma perceção única.
As suas interpretações iniciais foram variadas, desde respostas simples como “Está triste” ou “Não sei do que fala”, até reflexões mais inesperadas.

Uma menina, por exemplo, comentou: “O autor está desapontado connosco, está triste pelo que o ser humano está a fazer com a Terra. Estamos a destruí-la.” Essa resposta emocionou-me profundamente e reafirmou a importância de incluir a poesia na atividade.

O poema não foi apenas uma fonte de inspiração, mas também introduziu as crianças ao mundo da poesia, ajudando-as a descobrir as mensagens e emoções que o autor queria transmitir.

Antes de começar, apresentei-lhes uma regra fundamental: não podiam usar borracha. Queria que aprendessem a aceitar os erros como oportunidades para transformar e enriquecer as suas criações. Embora, no início, esta ideia não lhes agradasse, rapidamente perceberam o seu propósito.

A atividade foi desenvolvida em várias etapas:

Exercícios de libertação e mobilização:
Começámos com exercícios para relaxar as mãos e soltar os traços ao desenhar. Este passo inicial ajudou a reduzir a tensão e deu-lhes confiança para experimentar sem medo de errar.

Desenhos abstratos com vida:
As crianças escolheram figuras abstratas e, através da sua imaginação, transformaram-nas em desenhos cheios de significado.

Sombras que se transformam em monstros:
Utilizando as sombras projetadas por objetos que elas próprias selecionaram, deram vida a criaturas imaginárias. Esta atividade permitiu-lhes reinterpretar o quotidiano de uma forma criativa.

Novas funções para objetos antigos:
Cada criança desenhou um objeto, atribuindo-lhe um propósito completamente diferente do original. Embora este exercício fosse um desafio no início, todas conseguiram completá-lo com sucesso, demonstrando a sua capacidade de pensar fora da caixa.

Emoções desenhadas de olhos fechados:
Representaram emoções inspiradas no poema com os olhos fechados, sem recorrer a rostos ou expressões faciais. Este desafio incentivou um enfoque mais abstrato e intuitivo da criação artística.

Cartazes de filme baseados no poema:
Por fim, dividi o grupo em duas equipas para criar um cartaz de filme inspirado no poema, integrando todas as técnicas e aprendizagens anteriores. Trabalharam com colegas com quem normalmente não interagiam, promovendo o trabalho em equipa.

    A mudança nas crianças ao longo das duas horas do workshop foi notável. No início, muitas mostravam insegurança e uma rigidez marcada nos traços, mas, pouco a pouco, foram-se soltando. A ausência da borracha ajudou-as a concentrar-se no processo criativo em vez de procurar a perfeição técnica. No final, arriscavam-se mais, permitiam que as suas ideias fluíssem livremente e desfrutavam de cada momento.

    A minha reflexão

    O Despertar da Criatividade foi uma experiência transformadora tanto para as crianças como para mim. Enquanto elas descobriam novas formas de expressão, eu redescobri a importância de despertar a nossa criatividade.

    Algo que me chamou particularmente a atenção foi como as crianças mais novas, de 9 anos, pareciam ter uma criatividade mais desperta do que as de 12 anos.
    Isto fez-me refletir sobre como, pouco a pouco, vamos perdendo a capacidade de imaginar coisas diferentes – aquilo que não existe, mas que na nossa mente poderia existir. Por que será que isto acontece?
    Tenho uma opinião clara sobre este tema, mas prefiro deixar a questão em aberto para reflexão do leitor.
    Finalmente, este projeto não só me permitiu reconectar com a minha criança interior, como também oferecer às crianças um espaço onde pudessem ser livres para criar e explorar.

    Espero ter semeado nelas o desejo de continuar a imaginar, a descobrir e a desfrutar da beleza da criatividade e da expressão artística.


    Luna Correro, Dezembro 2024

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